sábado, 2 de agosto de 2008

Construir uma velhice gay ....

Bom pessoal, outro dia me deparei com uma situação de extremo preconceito, de um cara jovem gay para com um coroa igualmente gay, e não menos charmoso por isso ! Achei ridículo o comentário do rapaz, entre-dentes para o amiguinho : "Olha a maricona velha, jura que tá podendo!" .....Para o rapaz, só posso lamentar, pois ele também será velho um dia, mas com esse tipo de pensamento, será uma velho ridículo que não ira jamais aceitar sua idade e muito menos sua sexualidade nessa idade ! é o típico pensamento da bichinha novinha que jura que vai ser gay só até uma certa idade ( como se isso fosse possível né? ) e depois vai ter uma velhice normal, dentro da normalidade dele lógico ! Uma pena !Mas e você? tem preconceito contra pessoas mais velhas? Já achou ridículo algum cara idoso na balada??
Devemos repensar nossos conceitos já, pois amanhã seremos nos os ridicularizados, se não fizermos nada hoje e agora !! abraço

Colocados à margem da sociedade e exilados das formas de família consagradas, nós homossexuais temos uma tarefa a mais: descobrir como ser (e sobreviver) homossexualmente na terceira idade. Talvez possa soar estranho que eu esteja seccionando a velhice, ao enfatizar seu aspecto homossexual. Goste-se ou não, é importante lembrar que homossexuais têm inserções sociais muito diversas de heterossexuais. Se isso pode soar estranho é porque existe pouca consciência a respeito – o que não é de surpreender, pois a realidade sócio-cultural de homossexuais tantas vezes ainda está por ser descoberta ou em construção. Mesmo para homossexuais jovens, esse tema é importante. Quem não quer morrer cedo irá ficar velho, irremediavelmente. Dentro da comunidade, isso impõe uma tomada de consciência imediata, para que as futuras gerações de homossexuais, ao envelhecer, não tenham que começar do zero, como as precedentes.
Um dos estereótipos a serem desmontados é de que homossexuais velhos perdem o interesse sexual ou ficam broxas – fantasia que horroriza os gays, enquanto futuro inevitável que os espera. Pensem no estereótipo idiota de que todo homossexual deve desmunhecar. Algo semelhante acontece no caso dos coroas. Um amigo gay me contou que nunca tivera interesse especial por homens da terceira idade. Até que um dia transou com um, numa sauna. Na saída, ele deu carona ao coroa, que parecia ter uns 60 anos, mas com um vigor sexual de alguém muito mais jovem. Para sua surpresa, o homem contou que tinha 75 anos. Longe de mim generalizar essa experiência. Mas ela evidencia como estereótipos são mistificadores da realidade, que se apresenta muito mais imprevisível. É claro que, no macho humano, a potência sexual diminui com a idade. Com 40 anos você não terá a mesma fissura hormonal de um adolescente. Mas certamente um rapaz de 20 anos conhecerá menos alternativas amorosas do que um quarentão vivido. Em cada idade, haverá sempre vantagens e desvantagens. Mesmo porque a potência sexual não é o único motor no quadro libidinal humano. Não se trata, também, de homossexuais da terceira idade se engajarem no projeto de “juventude eterna” que grassa na comunidade homossexual.
Conheço homens que tentam disfarçar de modo obsessivo os sinais da velhice, até o ponto de ficarem psicologicamente infantilizados. O enfoque é outro: inventar uma maneira de envelhecer com qualidade, aproveitando peculiaridades da experiência homossexual e, a partir daí, ir construindo uma terceira idade sem vergonha de assumir sua experiência de vida. As futuras gerações de homossexuais agradecerão os modelos que porventura inaugurarmos.

Quando apareceu um filme como Brokeback Mountain, muitos de nós homossexuais que fomos vê-lo parecíamos rever um território bem conhecido. Muitos já havíamos sonhado com dois vaqueiros apaixonados ou tínhamos certeza de que isso era possível, a partir de nossas próprias experiências. Cada qual tem as suas, muitas vezes clandestinas e impossíveis de serem contadas. E, quando contamos, somos olhados com incredulidade. O mundinho hétero não acredita que a gente transou com jogador de futebol; ou com toureiro; ou com professor famoso da universidade; ou com treinador de academia (que só gostava de dar); ou com PM da cavalaria; ou com marinheiro; ou com investigador da polícia; ou com ator de telenovela. Desculpem a inconfidência, mas mencionei esses fatos porque conheço quase todos por experiência pessoal de cama. Haverá muitos outros casos “imprevisíveis”, para evidenciar que o desejo homossexual não privilegia nem profissão nem características sociais. Assim também ocorre em relação à velhice homossexual. Quantos gays coroas não são avôs? Ou bispos? Ou juízes? Ou militares? Encerrados no armário, é claro. Com certeza o mundo seria diferente se fosse amplamente conhecido o que nós homossexuais já vivemos em matéria de amor nas nossas camas.

Não há nenhuma obrigação de continuar trepando, ao longo da vida, em número recorde, nem de fazer campeonato de orgasmo. Mas também não existe nenhum decreto obrigando coroas a abandonarem suas funções desejantes. Aliás, se isso acontecesse, o que seria dos rapazes que curtem coroas? Esse é o outro lado da questão. Na condição de coroa, conheço cada vez mais rapazes que curtem homens velhos. Existem também muitos coroas que só gostam de transar com outros coroas. Socialmente, não se concebe que idosos tenham uma vida sexual e, menos ainda, entre si. Também não se imagina que rapazes amem senhores. Mas isso existe, na contramão de todas as expectativas. Ao me olhar no espelho, eu próprio me pergunto: quais são os elementos de sedução exercidos por um coroa homossexual como eu? Gosto de fazer a mesma pergunta aos rapazes que curtem coroas. Eles não conhecem muito claramente o terreno do seu desejo e tateiam na sua compreensão. Ainda procuram articular um desejo que, apesar de autêntico, lhes é socialmente novo. Mesmo os ursos já conseguem se articular em torno dos seus referenciais desejantes. Mas isso ainda não acontece no terreno do amor intergeracional, que é clandestino e praticamente vedado. Nesse sentido, o sofrimento desses rapazes também é inédito no contexto da comunidade homossexual que cultua a juventude eterna. Eles convivem precocemente com a velhice e, muitas vezes, experimentam dores solitárias inerentes a tal situação.

Conheci rapazes cujo amante coroa e casado morreu de repente. Eles não puderam sequer comparecer ao enterro, quanto mais receber consolo da família, que nada sabia do caso clandestino. Um deles tinha 14 anos quando seu amante de 51 anos morreu do coração. Estranho? Pois foi o ex-garoto, quando já era trintão, quem me contou essa história, garantindo ter sido ele quem primeiro seduziu o coroa casado.

A resposta desejante dos rapazes que curtem coroas ocorre em outra dimensão, quase inacessível para um mundo articulado sobre o binômio beleza/juventude. Ainda que eles próprios tenham dificuldade em explicar os caminhos do seu desejo, esses rapazes nos mostram que a perda da juventude não é sinônimo de perda da beleza. Seu desejo se articula num outro patamar, no qual pouco significa o padrão de beleza que nos vendem 24 horas por dia. Ainda não consegui desvendar sua química desejante, que é absolutamente diversa. Mas tenho certeza que ela me ensinou algo novo e me ajudou a escapar da lógica (ou armadilha) em que a manipulação cultural aprisionou nosso olhar, nosso gosto, nosso prazer. Nesse sentido, a própria G Magazine fica a dever às várias parcelas de leitores cujo desejo não se enquadra no estereótipo da beleza jovem e sarada que a revista privilegia. Seria desejável que se publicassem ensaios fotográficos em seções menores, com outros tipos de homens, fora do padrão musculatura/juventude. Conheço muitos ursos e curtidores de coroas que não têm nenhum interesse em comprar a G. Para eles, “músculo só é bom na sopa” - como dizia um ex-namorado meu.


Chegar à velhice homossexual não significa encerrar o ciclo do amor nem do erotismo. O desejo não fecha para balanço. Apenas muda de qualidade e parâmetros. Descobri isso com base em experiências da minha própria vida.

Por João Silvério Trevisan

15 comentários:

Alexandre Lucas disse...

Essa coisa de valorização exagerada da juventude não vai acabar bem. Quando essa geração envelhecer...

Rafa di Luca disse...

acho super válido o amor entre gerações e acho válido o sexo na terceira idade.

o que não acho legal é negar a velhice e querer parecer mais jovem.

não acho legal essa super valorização da velhice. os gays ainda não sabem envelhecer mas quase ninguém sabe. é preciso um processo de aceitação. não só da sociedade, mas tb daquele que envelheceu.

e sim, eu acho ridículo homens velhos que querem viver essa juventude, custe o que custar e acham que o mundo deve apoiá-los.

abs

SAM disse...

Nossa querido, fantastico teu texto!

Realmente devemos desenvolver a consciencia nesse aspecto!

Olha, desculpa a ausencia, como disse seu blog só é permitido o acesso a maiores de 18. e por conta da autenticação eu não consigo abrir no trabalho!

Ai só posso comentar no FDS!
Beijão!

Ainda mais por dentro...(rick) disse...

Já estou fazendo meu pézinho!!!

FOXX disse...

assim
o texto é seu?
pq tem uma "assinatura" embaixo
mas definitivamente é mto bom!

HAIRYBEARS disse...

ADOREIIIIIIII

O TEXTO

BJOS






HAIRYBEARS
http://hairybears.blogspot.com/

HAIRYBEARS disse...

BEIJOS

E ATE BREVE




HAIRYBEARS
http://hairybears.blogspot.com/

" O PIMENTA ! " disse...

Fox querido, eu só fiz a introdução, esse texto é do Trevisam, por isso coloquei o nome dele no final !!
abraço

Anônimo disse...

maravilhoso esse site.. garotos.. soumulher.. mas adorei ver isso.. tudo.. pois tenho 47 anos(gaynamora há 4 anos..sério.. com minha lindinha.. rss)...e é q...a velhice... n quer dizer nada..se estamos com a cabeça.. inteira e...boa..parabens garotos amados..adorei os textos..

Anônimo disse...

PARABÉNS PELO TEXTO !!!
DESDE OS MEUS 19 ANOS QUE ME INTERESSO E FAÇO SEXO COM PESSOAS DE IDADE IGUAL OU SUPERIOR A 60 ANOS, SEMPRE POR GOSTAR, SEM NENHUM OUTRO INTERESSE. ESTOU PARA COMPLETAR 60 ANOS E CONTINUO A PROCURAR POR PESSOAS DESTA MESMA IDADE. ESPERO QUE TODOS SAIBAM RESPEITAR PARA QUE POSSAM FUTURAMENTE SEREM RESPEITADOS.
BEIJOS

Perdigotos disse...

Visitei seu blog acidentalmente e gostei de ter lido o texto do Trevisan, que é um escritor muito talentoso. Não sou tão jovem segundo os padrões, pois já cheguei aos 30, e sempre gostei de homens mais velhos, desde adolescente. Fui casado com um homem de 56, que faleceu. E hoje sou casado com um homem de 57. Sobretudo no estado em que moro, a bahia, esse tipo de relação ainda é ohlada com muita estranheza e creio que sempre o que deve vir à mente das pessoas é que há algum interesse financeiro em questão.
Também acho que deveria haver alguma publicação alternativa à Gmagazine, que (apesar do espaço ínfimo para ursos) privilegia apenas um padrão.
Abraços a todos

federico Lorca disse...

Ótimo e totalmente real devemos ser mais inteligentes e entender a vida! É verdade músculos só pra sopas ...

Anônimo disse...

Gostei do texto. Já não me sinto um, tão, estranho no ninho gay, quando vejo que outros gostam de homens mais velhos. No meu caso, ser gay me ajudou a questionar se os padrões de beleza, idade, cor de pele, condição social etc. não me limitariam, como todos precoceitos o fazem, me impedindo de conhecer pessoas maravilhosas.

Pedro disse...

Gostei do texto e gostaria de acrescentar:
Por experiencia posso afirmar que a maioria dos gays entre 30 e 50 anos não se interessam por pessoas mais velhas e procuram aqueles na faixa dos 20. Quem se interessa por 50tões estão entre 18 e 23 anos. Então acho que essa conversa de valorizar a juventude é coisa dos gays de meia idade.

Anônimo disse...

o que me entristece é que eu vivi os anos de chumbo da AIDS e hj vejo um bando de bichinhas,como elas mesmo dizem,xoxando que tem mais de 40 anos.elas fazem isso pq não viram seus amigos jovens padecerem cedo dessa doença. chegar a terceira idade hjé um avanço fenomenal, Se hj elas tem coquetel,boates,comunidades gays,são graças as cacuras que lutaram muito no passado.